segunda-feira, 31 de julho de 2023

Estudante Digital: Relações entre "A Sociedade Anonyma Fabrica Votorantim" (1922), de Armando Pamplona e "A Indústria Açucareira Através da Usina Estrelliana" (1930), de Lux Filme Pernambucana

Ao analisar as duas obras de cavação, a comparação inicial mais evidente é a diferença entre a natureza principal das economias dos espaços registrados. O primeiro, cronologicamente falando, mais antigo e localizado na região sudeste, apresenta como grande joia de sua obra e região o desenvolvimento da sua indústria, que, como relatado no filme, é dada como uma potência para todos que dela usufruem, incluindo, nesse usufruto, o espaço em que esse modelo de produção é incluído. Dessa maneira, as imagens estão sempre em busca de dar a dimensão do impacto que aquela fábrica têxtil causou na localidade, registrando a extensão disso com as edificações colossais, complexos de moradia para os trabalhadores, igrejas, as imensas casas dos responsáveis pela fábrica e citando, também, a contribuição à metrópole com o planejamento e execução de construção de alguns de seus bairros. Apesar de o senso estético bem conservador e pouco moderno, a despeito do corpo imagético estar celebrando uma considerada modernidade social, as imagens se detêm, em grande parte, nas etapas de produção que são realizadas com a maquinaria filmada. Nesse aspecto, o proletário registrado é mais uma ferramenta para mostrar a grandeza do empreendimento, com esses, até mesmo, sendo registrados com um misto de curiosidade e incômodo perante o aparato fílmico em seu ambiente de labuta. 
Esses aspectos, em comparação ao filme da Usina Estrelliana, adicionam às imagens um documento histórico para além da análise individual, com a possibilidade de se notar uma clara diferença de desenvolvimento econômico nas diferentes regiões nacionais. A titulação já entrega: “A Indústria Açucareira Através da Usina Estrelliana”, mesmo gravada quase com uma década de diferença, expõe que o principal papel da região nordeste ainda era a produção de insumos, enquanto as regiões mais ao sul gozavam de desenvolvimento industrial mais avançado que os das regiões mais próximas ao equador. Sabendo que essas formas de desenvolvimento do trabalho também impactam a construção da visão social de mundo, vemos o reflexo na produção do segundo filme. Com características de trabalho mais rural sendo capturados, trata-se também os proprietários de forma mais personalizadas, tendo-se maior vislumbre da sociedade tida como alta classe do período em foco. Através da personalização, os registros impressos pela câmera parecem tratar tudo o que é filmado como posses ou dotes dos proprietários já filmados. Uma coleção de imagens que vão mostrar o poderio econômico daquelas pessoas, imagens essas, importante citar, pouco preocupadas em serem modernas, mas mais em criar volume ao pretenso desenvolvimento econômico atingido na região. As imagens chegam ao ponto crítico de tratar tanto em demasia todo o registrado como pose, que até mesmo os trabalhadores são enfileirados como parte da propriedade da família registrada como dona do local. Assim, em paralelo com o filme anterior, os trabalhadores mais apresentam incômodo do que curiosidade. 
Importante notar também o fato do tamanho dos registros. Obviamente, o primeiro filme é financiando por um grupo de indivíduos e o segundo somente pelas figuras principais registradas, mas não se pode deixar de analisar o aspecto de exibição pretendida pelos filmes. O primeiro pode intencionar um grupo maior de indivíduos e é um grande registro do desenvolvimento de uma área por completo, enquanto a duração do segundo confere a ele uma característica de registro caseiro que vá circular aos convidados da propriedade e pela própria família. Esse dado pode ser inferido levando em conta o preço de produção de peças assim, com todo o aparato e matéria-prima necessário. 
Não é preciso dizer que, apesar das diferenças em desenvolvimento das economias regionais, o país por completo ainda era mergulhado em situação de imensa fragilidade nas populações trabalhadoras, fato que fica evidenciado nas obras. Ao retratarem suas imagens em uma ótica de exaltação da economia desenvolvida em cada parte do país, não se pode fugir às disparidades, tanto em relação às regiões, quanto em relação aos indivíduos dentro da teia social. Uma situação que se altera minimamente com o tempo, mesmo que, também, não seja necessário dizer.

Filmes disponíveis em:



Texto escrito em 17 de setembro de 2020, encontrado como arquivo digital
no Drive. Realizado como atividade para a disciplina de Cinema Brasileiro
ministrada por Cid Vasconcelos no curso de Cinema e Audiovisual na UFPE.


Estudante Digital: Matar ou Correr (1954) - Carlos Manga - Brasil

Ficha técnica:

Matar ou Correr (Brasil) - 1h 27min - Lançamento: Novembro de 1954

Direção: Carlos Manga.
Roteiro: Amleto Daissé e Victor Lima
Produção: Guido Martinelli
Fotografia: Amleto Daissé
Montagem: Carlos Manga, Wilson Monteiro eWaldemar Noya
Música: Luiz Bonfá e Lyrio Panicalli
Direção de Arte: Arnóbio Carvalho
Figurino: Gilda Bastos
Elenco: Oscarito, Grande Otelo, Jesse Gordon, Julie Bardot, Renato Restier, John Herbert, Inalda de Carvalho, Wilson Grey, Altair Villar, Wilson Vianna, Suzy Kirby, Walter Quinteiros, Nelson Dantas, Nicolau Guzzardi
Estúdio: Atlântida Cinematográfica

Resenha
Matar ou Correr (1954), de Carlos Manga, é uma chanchada-western que parodia, em seu título e no nome de alguns personagens, High Noon, filme de 1952 conhecido no Brasil como Matar ou Morrer.
Sendo uma paródia, o espaço diegético do filme é especialmente curioso: há pouca indicação do país onde se passa os acontecimentos testemunhados – sendo tratado rapidamente no letreiro inicial como “[...]em certo ponto do Oeste, e em época qualquer.” – sendo uma das poucas indicações possíveis o nome da cidade cenográfica, City Down, que é construída em moldes imediatamente reconhecíveis de filmes hollywoodianos incluindo até os letreiros das edificações escritos em inglês, deixando uma certa dubiedade em relação ao espaço onde ocorre as ações do filme. Pela natureza da chanchada, não é difícil imaginar que o nome da cidade já é uma piada tanto de tradução literal quanto uma piada linguística. A tradução literal é “cidade baixa”, talvez uma possível descrição da situação do pequeno município dominado pelo crime escancarado, enquanto a outra situação é explorada na relação da dupla de malandros-cômicos, Kid Bolha e Ciscocada, interpretados por Oscarito e Grande Otelo, respectivamente, com o dono do hotel local, assim que chegam no pequeno vilarejo. O filme possui diversas tomadas externas e em estúdio, contribuindo muito ao imaginário da cidade e das cenas de perseguição a cavalo. A cidade é constituída de locais comuns a qualquer western e tudo é muito bem demarcado: o hotel, onde conhecemos somente o trecho externo; o saloon, onde ocorre a maioria dos conflitos físicos do filme e onde encontramos o escritório de Bob, dono do estabelecimento, e a delegacia com a cela, onde Jesse fica preso e vigiado preguiçosamente pelos dois xerifes de City Down.
A dupla, os protagonistas do filme, são tipos de malandro-cômicos que através de suas picaretagens conseguem prender o grande vilão da cidade de City Down, Jesse Gordon, interpretado por José Lewgoy, e assim invertem sua situação e se tornam xerife e xerife assistente da cidade. Durante o trajeto de ambos no filme, eles e encontram e auxiliam dois casais românticos a se encontrarem e a derrotarem Jesse Gordon que fugiu da prisão. O primeiro casal é composto de um mocinho, Bill, e uma mocinha, Helena, filha do dono do hotel, e são introduzidos mais ao início da película, enquanto o segundo, mais tardio, é composto pelo galã Roy e a vedete Bela, que trabalha no cabaré com o outro antagonista, esse trabalhando mais nas sombras, como mandante de crimes, e dono do saloon local, fazendo que fique menos claro um tipo frequente desses filmes. Os tipos na obra seguem a cartilha conhecida das chanchadas: o jeitinho brasileiro é bem inscrito nos malandros-cômicos, que fazem ações duvidosas do ponto de vista moral, mas acabam ajudando a cidade e os indivíduos. O primeiro casal apresentado segue a lógica da menina pueril e que nega os avanços sexuais do mocinho, esse que é um homem valorado pelas outras pessoas da cidade e corteja constantemente a mocinha, sendo responsável pela única cena musical do filme, onde faz um cortejo cantando a canção Ninguém para Amar de Anísio Silva e C. Portela e se aproximando da mocinha, que prossegue o rejeitando até o momento final do filme onde acontece o beijo apaixonado. O segundo casal, apresentado mais tardiamente, é de um galã e uma mulher sedutora, que se encontram em segredo para não chamarem atenção de Bob, o dono do saloon.
O saloon, inclusive, é locação de uma das cenas de maior demonstração de habilidade de Carlos Manga na direção. Oscarito, ainda se denominando Humphrey, recém chegado em City Down e depois de ter vendido alguns cavalos juntamente de Grande Otelo, chamando-se ainda de Bogart, vai ao saloon para gastar o seu dinheiro com um jogo de cartas. Por terem chegado à cidade como vendedores de cavalo, disfarce comum aos agentes federais que andam em duplas, ambos são confundidos e marcados por Jesse Gordon e seus capangas. Antes de entrar no local, ele se depara com um corpo sendo retirado pela porta da frente e é avisado que a ação foi feita por alguém chamado Jesse Gordon. Entrando no saloon ele prontamente pede um chopp e uma figura mal encarada se aproxima dele e agarra o seu chopp assim que o balconista o entrega. Sem graça e amedrontado, ele se afasta da figura para se aproximar da mesa de cartas e se senta com os jogadores que ali se encontram, sugerindo jogar com suas cartas por serem novas, quando na verdade a intenção é usar suas cartas marcadas para ganhar o jogo. Jesse e seus capangas expulsam o jogador na ponta oposta a Humphrey e o desafiam a um jogo de carta, contudo usando as cartas da casa somente. Há um belo espelhamento e coreografia da fotografia e dos atores. Quando os três antagonistas se sentam, eles são enquadrados em um conjunto que toma toda a tela. O contra plano é Humphrey e outros dois jogadores que já estavam na mesa, mas na presença de Jesse se retiram, deixando Oscarito enquadrado com dois lugares vagos ao seu lado, indefeso e sozinho. Quando as cartas vão sendo distribuídas, há planos detalhes de cada conjunto de cartas, e fica claro, mesmo por um espectador leigo, pelo tremer de mãos e atitude das personagens, que a personagem de Oscarito vai, inevitavelmente, e com uma sorte que é mal sorte, ganhar o jogo. Quando Humphrey retira sua mão final, há figurantes preenchendo o fundo do quadro que expiam suas cartas e tratam de se retirar daquela posição, escapando de eventuais balas do vilão perdedor. Ao jogar suas cartas na mesa, Jesse intima Humphrey a mostrar sua mão, mesmo com esse insistindo na vitória dele. Antes que possa revelar o que tem em mãos, Bougart, Grande Otelo com uma vestimenta nova e completa de cowboy, adentra o saloon de forma barulhenta e se chega de forma expansiva para próximo da mesa, disparando graças e tapas de deboche nas costas do mal encarado enfrentando seu companheiro, alertando que tudo bem ganhar dele, mas que devia ter cuidado com uma figura chamada Jesse Gordon. Explodindo com essa interação, Jesse vira a mesa e começa um embate entre as figuras. Ao fim, a dupla de malandros imobiliza o vilão e ganham honrarias na cidade, sendo denominados xerifes, além de ganharem suas alcunhas: Kid Bolha e Ciscocada. A comédia e tensão da cena, combinada a uma decupagem cuidadosa fazem a cena uma das mais chamativas do filme.
Filme disponível em:


Texto escrito em 29 de outubro de 2020, encontrado como arquivo digital
no Drive. Realizado como atividade para a disciplina de Cinema Brasileiro
ministrada por Cid Vasconcelos no curso de Cinema e Audiovisual na UFPE.

domingo, 30 de julho de 2023

Escrita Assistida: Nimona (2023) - Troy Quane e Nick Bruno - EUA

Ficha técnica:

Nimona (EUA) - 1h 42min - Lançamento: 14 de Junho de 2023

Direção: Troy Quane e Nick Bruno.
Roteiro: Robert L. Baird e Lloyd Taylor. Baseado em obra de Nate Stevenson.
Produção: Julie Zackary, Karen Ryan e Roy Lee
Fotografia: X
Montagem: Erin Crackel e Randy Trager
Música: Christophe Beck
Direção de Arte: Aidan Sugano e Jeff Turley
Elenco: Chloë Grace Moretz, Riz Ahmed, Eugene Lee Yang, Frances Conroy, Lorraine Toussaint, Beck Bennett, RuPaul Charles, Indya Moore, Julio Torres, Sarah Sherman, Nate Stevenson.
Estúdios: Annapurna Pictures, Double Negative, Annapurna Animation, DAMN! Show Productions, Vertigo Entertainment. 


É uma máxima conhecida que os vencedores que escrevem as histórias. Ao iniciar "Nimona" (2023), ouvimos uma das maneiras mais antigas de contarem histórias: um conto de fadas. O molde é conhecido: o Bem contra o Mal, luz contra sombra, na maneira mais simples e dual que seja possível até uma criança entender. Daí o Mal perde e a guerreira Gloreth da história é consagrada com máximas honrarias, um muro é criado para proteger o povoado que ela salvou, e que a partir dali irá prosperar sempre com a vigília da ordem hereditária de cavaleiros conhecida como a Instituição. Já temos traçado alguns símbolos recorrentes de uma série de representações que narrativamente ou visualmente irão compor os temas da obra.

Aliás, é consciente o uso de estruturas recorrentes que eventualmente são subvertidas no correr da história. Em ritmo rápido que irá pautar toda a obra, após a pequena narrativa, há um salto temporal de mil anos desde o fim do conto de fadas, em que a prosperidade na cidade murada avançou vertiginosamente. Da expectativa de um reino medieval, nos vemos em uma cidade com moldes de metrópole futurista: arranha-céus, luzes, propagandas em telões e hologramas, veículos voadores, telejornais, celulares, cores claras e dourado que mostram a pureza e o sucesso da cidade, mas ainda mantendo diversos traços de um cenário medieval, conjunto do departamento de arte que segue em lógica ao que visto na série animada "Arcane" (2021). 

Somos apresentados à Instituição, que por mil anos só aceitou cavaleiros filhos da tropa sob o comando de Gloreth que combateu o Mal que fundou a cidade na paranoia da proteção. A rainha Valerin (Lorraine Toussaint) do lugar conhecido como o Reino, permitiu pela primeira vez que um jovem plebeu, um de nossos protagonistas, chamado Ballister Boldheart (Riz Ahmed) adentrasse a academia que prepara os cavaleiros para proteger o reino. Há um burburinho nos jornais sobre uma possível rivalidade com o descendente direto de Gloreth, Ambrosius Goldenloin (Eugene Lee Yang), mas rapidamente é revelado que os dois são, na verdade, um casal. A nomeação desses cavaleiros está para acontecer em breve. Nos vestiários, vemos Thoddeus Sureblade (Beck Bennett) um personagem que é o conhecido bully da narraiva, esse permanecerá imutável até o fim da obra, até que a Diretora (Frances Conroy) entra e discursa palavras de incentivo. A cerimônia é em um grande estádio - os cavaleiros fazem propagandas como estrelas do esporte ou de cinema, em moldes mais avançados de uma ideia similar usada em "Hércules" (1997) da Disney - e no momento que a nomeação de Ballister ocorre e sua espada é entregue em suas mãos, um dispositivo no cabo dispara um laser e mata a rainha Valerin na frente de todos. Por reflexo de seu treinamento, Ambrosius saca sua espada e corta o braço direito de seu amado para desarmá-lo. Ballister Braveheart foge e é o procurado número um em Reino. Então, em um casebre abandonado nos limites da cidade e com um novo braço mecânico, ele é encontrado por Nimona (Chloë Grace Moretz) que está disposta a ser sua parceira de crime. Apesar de longa introdução no suporte escrito, esses eventos são descritos em quinze minutos dentro da obra. 

As temáticas em "Nimona" são tratadas de maneiras mais importantes que seu desenrolar de história, esta última cheia de conveniências - Ballister se associando a Nimona de maneira súbita, o escudeiro que gravou o crime da Diretora, a separação de Ballister de Nimona para iniciar o terceiro ato - e alta velocidade nos acontecimentos, em linguagem que lembra muito o comportamento do audiovisual na internet, especialmente em suas inúmeras gags visuais onde reside o maior humor para o público-alvo infanto-juvenil. Isso diminui certas coerências narrativas, mas fica longe de eclipsar as representações e discussão temática que é revertida ao primeiro plano. Nossos protagonistas divergentes e queer - Ballister é um homem não-branco, PCD e gay, enquanto Nimona é neurodivergente e é metamorfa, o que inclui a reafirmação de sua própria identidade ao ser perguntada o que ela é: "Eu sou Nimona!" -  estão em uma narrativa aventuresca em que buscam provar a inocência de Ballister, mesmo que a contragosto de Nimona, muito mais indignada com o status quo por suas experiências com os grupos que sempre a taxaram de monstro.

Isso faz com que haja um embate da dupla de protagonistas entre si, e juntos contra a estrutura política e geográfica de Reino. Os nomes genéricos, inclusive, explicitam ainda mais como o tema está em ênfase: um conto de fadas em que o reino se chama Reino, uma instituição que comanda a segurança elitista da cidade com cavaleiros superstars, que detém controle da propaganda ideológica para a população chamada Instituição, uma cidade que é fechada com muros e que rejeita tudo que não for familiar àquele espaço, com armas apontadas para fora prontas para acabar com o diferente.

Nimona é o estopim da criação dessa cidade, como é mostrado em seu flashback. Era amiga de Gloreth quando a guerreira era criança. Foi a primeira pessoa a vê-la em toda a sua fluidez de ser e aceitá-la como era, até os adultos chegarem e imporem no seu pensamento o que de fato ela tinha que pensar: Nimona era um monstro. Daí uma taxação, um preconceito que dura mil anos - pensando em termos cronológicos da nossa cultura autoclamada ocidental de dois mil, não estamos tão separados - que escreve uma história só quebrada pelo coração valente de um indivíduo pobre que estava se alçando socialmente, mas precisa enxergar a primeira vez - com uma tradução visual pelo brilho nos olhos de Ballister se alterar durante a narrativa de um losango, quando está com seu amado na Instituição, para um quadrado quando está em sua jornada - que a estrutura que quer tanto fazer parte é egoísta e não está interessado em cuidar das pessoas - como a Diretora que matou a rainha, utiliza-se de fake news, quer destruir a cidade e matar sua população apenas em prol do seguimento de uma tradição fazendo tudo o que for preciso, acima de tudo, acima de todos.

O kaiju que Nimona se torna pelo acúmulo da sua solidão e depressão, só é detido do suícidio - tema denso em um filme infanto-juvenil, mas urgente pela adolescência ser uma faixa etária assolada por esse tipo de adoecimento - quando encontra um par que a acolhe e diz que não está sozinha. A partir disso ela decide que eles vão vencer. "Vamos reescrever a história!". Nimona se sacrifica para deter o canhão de matar a todos na cidade. É estranho por manter a morte de Nimona, mesmo que momentânea para o espectador, como autocausada, justa a discussão necessária pelo teor metafórico de ser um "monstro". Apenas o sacrifício dela - libertando as pessoas dos muros e do domínio ideológico da Diretora - faz com que a população entenda sua verdadeira natureza, o que é uma pena.

Como é comum a filmes que se desenrolam de forma individualizada através dos protagonistas, a mudança do arco narrativo é mais concentrada nestes. A mudança macro no universo do filme é mais sugestionada que vista. No caso da importância de sua discussão, lembra-se que é apenas um filme, não há de mudar nada. Apesar disso, temas mais urgentes, mesmo que dentro da lógica de mercado, podem também sugestionar que estamos evoluindo em nossas discussões de um imaginário comum mais aberto ao outro. Talvez isso comece aos poucos, como com uma criança que cria um amigo imaginário que é diferente de si. Quem sabe o quanto vamos reescrever a história com isso. Espero que nossa mudança dure bem menos do que mil anos para acontecer.

Filme assistido no formato digital em um computador no dia 29/07/2023

sábado, 29 de julho de 2023

MOV Resenha: 09.11.2022 - Sessão 04 - 19h: "Vozes que Circundam" - Ouço Você Falando Essas Mesmas Palavras e Nonada

 Ouço Você Falando Essas Mesmas Palavras - Universidade Federal do Oeste do Pará | Dir: Amanda Poça - 12 min


A presença do corpo na sessão ”Vozes que Circundam" no MOV, é uma conversa sobre a origem não dada das coisas. Não dada porque em ”Ouço Você Falando Essas Mesmas Palavras”, de Amanda Poça, é lançado o não tão óbvio: a memória vem do corpo, não da mente.

Dessa forma, a fala e as palavras podem sim ser som, mas não precisa ser voz. Os tambores, a percussão, - presentes sempre ao áudio do filme - os grafismos e objetos que evocam a roda e suas tecnologias, falam sobre coisas outras que não as da voz. Aliás, as palavras e a fala podem também ser voz, especialmente a de uma mulher indígena que sua os seus ritos e fala o medo por ser mulher, a angústia das ausências e os caminhos que sabe agora para dentro de si. As mãos na terra ou no sabão, ou na terra e sabão ao mesmo tempo, já que o tempo linear é uma falácia, também falam sobre a alma e um ciclo, um círculo, a roda e toda a tecnologia que ela traz, sendo composta por corpos que deitam em si, velas alinhadas ombro a ombro e o suor que lembra o calor que passou.

Ao filme é celebrado a palavra escrita, a palavra não escrita, o ciclo de destruição e reconstrução. A textura de película prova que o que existe toca e tem qualidade que a mente não vai lembrar. O que resta ao rememorar deve ser dentro e completo, nada além de toda, e que seja para fora, para dentro de nós e que escutemos as palavras que circulam na pele.




Nonada - Universidade Federal de Pernambuco | Luiz Apolinário - 25 min


Há um som grave sempre presente enquanto tudo está desnudo em ”Nonada”, fílmica performance dirigida por Luiz Apolinário. A sensação tátil e física do som grave - que se sente nas entranhas - é o plano onde se desenrola os movimentos não convencionais das figuras em tela. Os corpos nus, salvo colares iguais que ambos os atores usam, ocupam um MAMAM (Museu de Arte Moderno no Recife) mais nu ainda. As paredes brancas e espaços vagos permitem que os corpos caiam, se arrastem e busquem os movimentos. Há algo de visceral, visceralidade animalescamente humana, enquanto os corpos vagam e se deparam com fogo, objetos pontiagudos, panos e frutas. 

Ao toque do título, das ninharias e insignificâncias, aqueles pequenos achados, em espaços tão vazios, conduzem sensações cruas entre as interações. Tudo parece ser visto a primeira vez e os objetos em si pouco dizem de início. Ao tom da experimentação das figuras humanas, os fios de tecido são postos em emaranhados entre as duas figuras que se comunicam apenas pelo olhar; os facões, tesouras e estiletes fazem esse mesmo olhar ser violento e desconfiado; as frutas são esmagadas a mãos próprias e tem-se fome. Quando roupas são apresentadas, pouco importa àquele momento: não há norma para poses ou encaixes das peças e o fogo é objeto de fascínio sempre e nunca explicável.

"Nonada" tem coisa de âmago, sem coberturas, sem excessos visuais, o ali e o que se sente ali, enquanto pequeno e humano, enquanto carrega-se o outro, enquanto não se adequa-se, enquanto se tem pele, enquanto chora.



Coletânea de resenhas críticas escritas durante o MOV 2022 -
V Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco

MOV Resenha: 09.11.2022 - Sessão 01 - 15h: "O Futuro é Uma Roupa que Ainda Não Nos Cabe" - O Céu de Lá e Outras Maneiras

 O Céu de Lá - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro | Dir: Bernardo Tavares Rosa - 24 min


O som das turbinas de avião em atividade, presente na abertura, fim e nos meios de ”O Céu de Lá”, dirigido por Bernardo Tavares, indica a passagem das coisas. Remontando a história das mulheres migrantes da sua família, com foco em Maria e Luiza, avó e tia-avó do diretor, pensa-se sobre distâncias e tempo.

O som de rádio enquanto Fagner toca a música de Nando Cordel ”Você endoideceu meu coração” é acompanhado por um andar devagar de uma senhora em um andador. O forró indica o nordeste. As memórias vão se soltando com o apreço pelas fotografias e os olhares no horizonte. Nasci, me criei, trabalhei, namorei e tomei banho de rio lá - é parte das lembranças de Luiza sobre o Ceará de origem, aqui transcritas com o perdão da eventual perda de detalhes pelo efeito do tempo entre a exibição e a escrita. Esse mesmo tempo que leva coisas, mostra o que vai ficar e o que não foi. Sonhando em casar com um doutor e ter cinco filhos, Maria se casa com um caminhoneiro que morre de malária e assim ela migra. A irmã queria ser policial ou repórter, já que repórter anda muito. A realidade se impõe ao sonho. O sotaque diferente entre mães, filhas e neto é mais um caminho da migração do tempo. 

Envelhecer é rememorar a vida. É ver o trajeto do avião que decolou há um bom tempo e que tem destino certo, mas por caminhos nem sempre claros. Há cinquenta anos de distância do Ceará, o que fica na memória é a beleza de antes, a santa que apareceu no céu, o triste dia que a seleção foi tricampeã e as memórias gravadas pelo neto enquanto se senta fora de casa, esperando o próximo avião passar.




Outras Maneiras - Universidade Federal da Paraíba | Malu Ramos - 5min


Em cinco minutos de doçura e bela homenagem, Malu Ramos, diretora de ”Outras Maneiras”, nos ensina como e com quem aprendeu sobre formas de amor. Ao som do apertar de uma câmera analógica, Malu expõe suas poses infantis e seus cliques surpreendidos.

Todo esse arquivo pessoal é trazido não para pensar tão somente sobre si e suas fotos, mas puxa de memória o não presente explicitamente no processo fotográfico. A ela interessa o autor, seu pai. Trazendo no audiovisual, que tem uma relação bastante próxima com as imagens até mesmo fixas, os poderes da autoria e da imagem revelada enquanto canal de comunicação afetivo. À memória, voltam os cliques, o cheiro de envelopes de fotos e o pai sempre presente nesse processo. Ele não questiona a câmera, diz Malu quando assume o papel do pai. Mais como ele se sente quando, trajado de luvas de boxe, ele faz pose perto dos vinis como ainda pequena ela faria na praia.

A intimidade inscrita sobre os dois, na mesma matéria-prima que sempre os envolveu, é uma declaração de amor de uma relação sobre minúcias e carinho a um processo de formação. Aprendemos a amar coisas com nossos pais e assim também é forma de declarar "eu te amo".


Coletânea de resenhas críticas escritas durante o MOV 2022 -
V Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco

MOV Resenha: 08.11.2022 - Sessão 03 - 19h: "Uma Caverna do Dragão" - Mondo Cacho e Retalhos

 Mondo Cacho - Universidade Federal do Recôncavo da Bahia | Matheus Leone - 19min


Não é incomum na parcela universitária da produção cinematográfica ver filmes-ensaio em que autores refletem sobre si. Pensar-se como personagem é a experiência de se dimensionar e organizar vivências e aventuras no mundo. Ao abrir de "Mondo Cacho", dirigido por Matheus Leone, já está dito como são contadas as histórias: uma pessoa parte em uma jornada ou um estranho chega à cidade. 

É essa a bivalência aqui: um nativo, Flávio, ingressa na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e uma forasteira, Bruna, também. Pode ser óbvio pensar em como as experiências moldam os indivíduos, mas as lembranças das festas da Quinta do Preto Velho, na Rua 25, localizada na cidade de pouco menos de quarenta mil habitantes chamada Cachoeira, lugar que recebe na época da interiorização das universidades federais o Centro de Artes, Humanidades e Letras, vulgo CAHL, mostra o quanto as pessoas também moldam os espaços e as experiências.

Cachoeira é uma cidade que vive de memórias e o audiovisual tem tudo a ver com isso, diz o nativo. A transformação geral é trazida em relatos com tensões próprias. Do lado do nativo, nem todos se dão conta que o espaço também é ocupado por alguém que é de lá, o que leva à escuta das diferenças dos desordeiros do CAHL em relação à cidade. A forasteira Bruna narra sua chegada de Minas até o sul da Bahia, seu desenvolvimento e as violências homofóbicas sofridas. Não se engane: nada é dito com ressentimento ou raiva, apesar do segundo soco na cara ou dos abaixo-assinados para expulsar a universidade da cidade com todos os ”maconheiros, traficantes e vagabundos”. 

A cidade também muda. O relato sobre o amigo Reifra, antes atacado por palavras homofóbicas, que se torna amigo dos vizinhos de Bruna que aquilo fizeram, é prova desse constante movimento e entendimento entre as partes. A memória das imagens é uma gostosa montagem de filmes realizados pelos alunos do curso que também marcam aquela memória. Dá vontade de ser universitário, voltar a ser ou ter orgulho de estar o sendo e, quem sabe mudar, um mundo de cada vez. 




Retalhos - Universidade Federal de Pernambuco | Clara Coelho e Thales Seixas - 23 min


É curioso como, apesar do modelo formal, a constituição conceitual de ”Retalhos”, dirigido por Clara Coelho e Thales Seixas, funciona bem em combinar o modelo conhecido com sua proposta. Tratando de profissionais pouco visualizados, em persona não em trabalho, do audiovisual, o filme apresenta três figurinistas em estúdio para falar sobre seus processos, biografias e experiências. Paulo Ricardo, Caroline Oliveira e Rayanne Layssa são apresentados em fragmentos - ou, se preferir um sinônimo, recorrer ao título da obra - e suas falas e saber-fazer da área são costurados pela performance visual de Itioko Santiago.

Com muita generosidade, é desvelado as confluências de opiniões e especificidades de métodos que cada um apresenta. Enquanto personagens da obra, há perfis que vão do artístico e político, prático e produtor, universitário e criativo, e as matrizes que são possíveis por combinações dessas, em falas que contemplam a sensorialidade, o acaso, as falas dos tecidos, das roupas e dos ritos. A condução é em tom de conversa. É tudo real e material como o que se põe sobre a pele: desde o acúmulo de funções na cena de cinema independente, a necessidade de se virar com poucos recursos, se sustentar pelo trabalho árduo e, por vezes, invisível e as idas ao centro em garimpo por tecidos e ideias.

A performance que amarra as cenas, mostra um trabalho que é construído aos poucos, em mãos nuas, mas com atenção plena. Em momento de maior especificidade dos relatos, Paulo fala do processo que envolve atores, com a referencialização do mundo interior, com seus medos e desafios, posto ao mundo em proteção que se veste. Carol, como prefere ser chamada, olha ao mundo e sabe, como os outros, que ele se expressa e só espera para conversar com uma obra, e essa conversa pode ser uma pequena jaqueta rosa. É um entrelaçar de muitas mãos, pensando os objetos com efeito e afeto, sensíveis ao que é dito em silêncio por quem tanto presta atenção nos seres humanos e seu subjetivo posto em trama. 



Coletânea de resenhas críticas escritas durante o MOV 2022 -

V Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco

MOV Resenha: 08.11.2022 - Sessão 01 - 15h: "Na Contramão Atrapalhando o Trânsito" - Madeira de Lei, Tô Esperando Você Voltar e Fantasma Neon

 Madeira de Lei - UNINASSAU | Dir: Kalor - 10 min


Próximo ao fim de sua densa obra "Madeira de Lei", Kalor, a diretora, nos fala, ao som etéreo de uma flauta e ao pé de uma fogueira, sobre ser uma das tantas mulheres que descendem da África. Ao mesmo tempo, toca na minha mente trecho da canção ”Zumbi” de Jorge Ben Jor, em que se fala sobre quem são aqueles que foram trazidos e foram vendidos forçadamente: ”Há um grande leilão/ Dizem que nele há uma princesa à venda/ Que veio junto com seus súditos/ Acorrentados em carros de bois”.

Kalor, claramente, sabe disso. Ao dedicar o filme às suas mais velhas, da casa de sua avó na Rua Vila Velha em Santa Mônica, lá em Camaragibe - apresentada em recurso digital que mostra o cantinho exato de onde a mente reflete. Sabe que está fazendo um filme, sabe que está em uma pandemia, sabe de onde veio. Sua árvore genealógica é apresentada em caixa alta pelas imagens na tela, com fotos 3 por 4, de suas vós, aos seus pais. O tempo se inscreve nos móveis oleados por peroba, nos trabalhos domésticos que ela realiza, - aqui, para si, em contraposição ao que foi para sua mãe e suas mais velhas - nos calendários e chamadas de notícias que correm a tela repetidas vezes - recurso visual tão sagaz da linguagem reconhecível da TV -, com datas e acontecimentos que embrulham o estômago.

A pandemia que Kalor sabe enxergar também traz embrulho. Além das notícias transcritas em tela, os vídeos e áudios explicitam a relação da morte da população negra acorrentada ao trabalho para a classe média branca. A morrer, porteiros e domésticas foram obrigados a continuar trabalhando sem poder tomar o cuidado que era necessário. Poderia - e será que não foi? - ser as mulheres da sua família. Kalor pensa nas suas e sabe o que contar sobre si e sobre quem fez ela ser. Toda a admiração por elas é explicitada pelo caminho que sabe ter sido percorrido até a história estar contada no agora e apesar de tudo.




Tô Esperando Você Voltar - Academia Internacional de Cinema | Marina Lavarini -  7 min


-Todo 'modernismo' traz suas violências - escutei uma vez de Santinha da Caxangá durante a exibição de ”Rio Doce/CDU”. A senhora em tela falava da - sim, diminuta em comparação - metrópole do Recife. ”Tô Esperando Você Voltar”, dirigido por Marina Lavarini, fala sobre uma dessas violências subjetivas na megalópole de São Paulo.

Sozinha - em uma ponte ou em seu apartamento - uma jovem enxerga com câmera e olhos os prédios. Uma solidão que só é cortada por uma voz que sai do celular e enche a tela para nós. É saudade que permeia o filme. Fechando as janelas, e assim com os sons da cidade minguando na mixagem, ela se ocupa com seu cuidado de plantas e do seu gato, sua única companhia. Em tela, a personagem de ar cheio de preocupações. Na mente, a lembrança é cortada pela resposta em áudio sobre o envio de dinheiro, sobre a noção da responsabilidade de aprender a aguentar a solidão tão logo na juventude. As coisas pequenas parecem menores na cidade que não se importa com quem nela está, mas é bom poder escutar o café passando para a xícara como era feito em nosso lar - detalhe que é um brinde gigante do áudio do filme -, mesmo que aqui esteja sendo engolido pelos barulhos dos carros.

Ao fim de tudo, um cigarro, para combinar com o acinzentado urbano. A fumaça também é cinza como as fotos que entrecortam a tela. Uma canção de ninar enche o áudio com a mesma voz maternal ouvida durante o filme. Os cantos do apartamento são tão sozinhos como quem está nele e todos dormem. Sozinhos, pequenos e querendo voltar.




Fantasma Neon - PUC | Leonardo Martinelli - 20 min


Nos teatros vazios ou nas pequenas interações possíveis pela espera de trabalhadores para fazer suas entregas - de uma lista de possibilidades ditadas no início - pedidas por aplicativos, a estetização e cuidado nos planos alinhadíssimos e interessantemente iluminados em "Fantasma Neon", dirigido por Leonardo Martinelli, parece perguntar: ninguém está vendo isso não? 

Chama atenção o canto lírico, como um musical que abre e entrecorta o filme, as cores vermelhas e laranjas que são realçadas por luzes de faróis de carros. Relatos sobre a vivência urbana são interpretados na rua ao olhar compenetrado dos semelhantes que conhecem bem a situação, os 'giroflex' policiais ao fundo, sempre à espreita. Trajados com mochilas térmicas de isopor, essas 'assombrações' já foram vistas por todos nós. Quem sabe não já tocaram nossas campainhas. Mas parece que só dançando com caixas enormes nas costas, - o quão desconfortável deve ser carregar aquilo nas costas, você sabe? - enquanto desvia das armas apresentadas no jogo de montagem, é que olhamos com atenção para eles.

João - nosso protagonista - canta, dança, se revolta e carrega nas costas itens de ’delivery’. Está sempre acompanhado por outros, relembrando sonhos e lamentando a fome enquanto nos olha nos olhos, plano que entrega impacto penetrante. São negros, homens e mulheres, fantasmas na vida e na morte - quando o sangue se transforma em ketchup nos cortes rápidos, não há motivo pra preocupação. Tudo o que são e que sonham é engolido pelo isopor térmico, em poesias visuais que somem com cabeças e com aviões.

A sensação revoltosa acompanha toda a obra. O canto que começa solitário vai ganhando resposta em coro de outros que sofrem o mesmo diariamente e são acusados de ”estar no caminho”. Ao fim, a movimentação de tantos corpos em meio ao caos abaixo de um viaduto proclama visualmente ”This is America”, mas o que instala é mais um ”Zé do Caroço”, com ares necessários de Paulo Galo. Esses já existem, prestemos mais atenção para não precisarmos de neon.



Coletânea de resenhas críticas escritas durante o MOV 2022 -
V Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco

sexta-feira, 28 de julho de 2023

MOV Resenha: 07.11.2022 - Sessão 01 - 15h: "Andar para trás" - Paola, Suíte Cachoeirana e Nur

 Paola - Universidade Federal de Pernambuco | Ziel Karapotó - 16 min


Paola é como as plantas e há um grande ensinamento nisso. Em um de seus planos mais bonitos, o filme Paola, dirigido por Ziel Karapotó, mostra a personagem-título em um pequeno barco indo em direção ao Marco Zero da cidade do Recife, ato que parece ser um retorno simbólico em sua diegese, ou espaço fílmico.

O figurino florido e colorido que ressalta a figura de Paola contrasta os cenários profundamente cinzas do urbano. O vestido, bem como todos os elementos, se coloca no filme como um dos vários enfrentamentos postos à mesa com o parente: a planta é um ser vivo igual a nós, cresce igual a nós - diz, mais ou menos assim, Paola em reflexão. 

Comprando flores durante os dias nas ruas do Recife, seu corpo pode ser visto como desviante - a câmera nos traz o uso de desfoques no espaço urbano que parecem longe do acidental: o que não querem ver em Paola? - à mesa com o parente, só lembranças de conforto - como as noites sabem trazer - pela presença, reza, águas e cores. De uma forma ou de outra, a figura de Paola e suas flores de reza - nas águas, que são tão importante meio de transporte para os que o respeitam e para o filme - se confundem entre os planos sobrepostos pela transparência, e as cores se completam pelo cinza da cidade e da fumaça que se larga desde a primeira conversa na mesa, entre os parentes e entre os cachimbos.

Ao final da grande reflexão à mesa, os bastidores, que vieram antes como som durante os trechos iniciais com os usais patrocínios, nos retornam da mesma maneira, mas em canto: Deus no céu e os índios na terra. A dança vira reza. E que assim seja.




Suíte Cachoeirana - Universidade Federal do Recôncavo da Bahia | Luan Santos - 6 min


Ao adentrarmos na Minerva Cachoeirana, logo ao início do filme,  em conjunto com nosso protagonista sem nome, já somos direcionados, física e simbolicamente, ao domínio de som que "Suíte Cachoeirana", dirigido por Luan Santos, propõe em seu título, seus recursos e em seu ritmo. 

O que vemos se desenrolar em tela com profunda criatividade, diga-se não só de passagem, parece ser inspirado de alguma forma por jogos digitais: sua música sempre presente, sua direção de arte que entrega figurinos e objetos de cenas com carisma particular e sua estrutura de jornada parte brincante, parte aventuresca da personagem acompanhada. Essa aventura, aliás, possui belos cenários no Recôncavo da Bahia e utiliza os símbolos carnavalescos e de religiões de matriz afro para compor seu mundo com falas sonoras e que possui uma fotografia que usa pouco para ser eficiente, por vezes com cores avermelhadas, com uma boa sensação de "filme queimado", que faz a mente viajar em um estado de alegria, pelos sentidos tomados pela obra, e de nostalgia, por alguma reminiscência do suporte de filmes em película que ainda possa restar no coletivo das mentes.

É brincante em seus recursos também por não só usar cores vistas em películas, mas bem como pelo uso de efeitos visuais que nasceram com o cinema em sua origem tão, tão europeia - aqui melhor trajada de Bahia - em suas trucagens com troca de figurino e surgimento/desaparecimento de objetos, além de recursos próprios da montagem, como na escada quase infinita que o protagonista vence e recebe a merecida benção no topo. Já que brinca, o carnaval fecha a obra em seu ritmo de crescendo musical que, sim, está no coletivo de mentes, deixando um gosto bom nos olhos, soando bem à boca e perfumando a audição.




Nur - Universidade Federal de Pernambuco | Felipe Karnakis - 3min


Exibido pelo MOV em sessão chamada "Andar para trás", "Nur", dirigido por Felipe Karnakis, começa dando corda em um relógio. O tempo volta enquanto embarcamos para outro lado de um Atlântico tão próximo, em lugares que ainda não vimos, mas que já foram vistos por alguém. 

As cinzas fotografias que entram em sucessão na tela mostram 'alguéns' com nomes. Quem nos diz é uma voz que revela que todos os caminhos contados são passos dados para mais longe das imagens que vemos, até onde o lugar em que nós a vemos. A voz - masculina, envelhecida - nos diz em português, mas com sotaque de outro canto. As imagens nos mostram de onde. Nos é dito que lá, a realidade era trabalho, mas havia carinho. Em terra brasileira é igual, mas sem carinho. A condição de vê-las - tão rápidas as memórias são - em um discurso fílmico maduramente conciso, cresce o som do relógio à mente, em edição prodigiosa com as imagens fixas. Até quando estamos voltando? Os nomes tão incomuns para a cultura brasileira são dados sem titubeio, ribombam as feições que encaramos sem movimento próprio. 

A voz, que logo abandona o sotaque para perguntar em língua mãe - que trata com mais carinho - que caminhos foram andados, que palavras proferidas, volta à origem. As imagens não se movem, o tempo se move. Nós olhamos para as imagens sem piscar. Elas se aproximam de nós.



Coletânea de resenhas críticas escritas durante o MOV 2022 -
V Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco

Começando corretamente: do fim

A fim de esmiuçar alguns pensamentos que incorrem sem convite e, por falta de força, não se calam, procurarei dar vazão ou fim para alguns deles neste galpão de paredes invisíveis.

Por falta de definição e estrutura, e por constantemente ter buscado sem sucesso ignorar ambas, esse espaço será de construção de algo sem muito planejamento. Críticas, comentários, projetos, revisões de memória, anotações, pensamentos e mentiras irão compor esse mural, planejado com o cinema em mente, mas que será, sem dúvidas, transgredido eventualmente no caminho.

Talvez uma partilha eventual com alguém ou quem sabe um monólogo de percepções herméticas. De qualquer forma, a qualquer um, pela primeira vez a mim mesmo: bem-vindo, aqui é onde acaba o que havia.