sábado, 29 de julho de 2023

MOV Resenha: 08.11.2022 - Sessão 01 - 15h: "Na Contramão Atrapalhando o Trânsito" - Madeira de Lei, Tô Esperando Você Voltar e Fantasma Neon

 Madeira de Lei - UNINASSAU | Dir: Kalor - 10 min


Próximo ao fim de sua densa obra "Madeira de Lei", Kalor, a diretora, nos fala, ao som etéreo de uma flauta e ao pé de uma fogueira, sobre ser uma das tantas mulheres que descendem da África. Ao mesmo tempo, toca na minha mente trecho da canção ”Zumbi” de Jorge Ben Jor, em que se fala sobre quem são aqueles que foram trazidos e foram vendidos forçadamente: ”Há um grande leilão/ Dizem que nele há uma princesa à venda/ Que veio junto com seus súditos/ Acorrentados em carros de bois”.

Kalor, claramente, sabe disso. Ao dedicar o filme às suas mais velhas, da casa de sua avó na Rua Vila Velha em Santa Mônica, lá em Camaragibe - apresentada em recurso digital que mostra o cantinho exato de onde a mente reflete. Sabe que está fazendo um filme, sabe que está em uma pandemia, sabe de onde veio. Sua árvore genealógica é apresentada em caixa alta pelas imagens na tela, com fotos 3 por 4, de suas vós, aos seus pais. O tempo se inscreve nos móveis oleados por peroba, nos trabalhos domésticos que ela realiza, - aqui, para si, em contraposição ao que foi para sua mãe e suas mais velhas - nos calendários e chamadas de notícias que correm a tela repetidas vezes - recurso visual tão sagaz da linguagem reconhecível da TV -, com datas e acontecimentos que embrulham o estômago.

A pandemia que Kalor sabe enxergar também traz embrulho. Além das notícias transcritas em tela, os vídeos e áudios explicitam a relação da morte da população negra acorrentada ao trabalho para a classe média branca. A morrer, porteiros e domésticas foram obrigados a continuar trabalhando sem poder tomar o cuidado que era necessário. Poderia - e será que não foi? - ser as mulheres da sua família. Kalor pensa nas suas e sabe o que contar sobre si e sobre quem fez ela ser. Toda a admiração por elas é explicitada pelo caminho que sabe ter sido percorrido até a história estar contada no agora e apesar de tudo.




Tô Esperando Você Voltar - Academia Internacional de Cinema | Marina Lavarini -  7 min


-Todo 'modernismo' traz suas violências - escutei uma vez de Santinha da Caxangá durante a exibição de ”Rio Doce/CDU”. A senhora em tela falava da - sim, diminuta em comparação - metrópole do Recife. ”Tô Esperando Você Voltar”, dirigido por Marina Lavarini, fala sobre uma dessas violências subjetivas na megalópole de São Paulo.

Sozinha - em uma ponte ou em seu apartamento - uma jovem enxerga com câmera e olhos os prédios. Uma solidão que só é cortada por uma voz que sai do celular e enche a tela para nós. É saudade que permeia o filme. Fechando as janelas, e assim com os sons da cidade minguando na mixagem, ela se ocupa com seu cuidado de plantas e do seu gato, sua única companhia. Em tela, a personagem de ar cheio de preocupações. Na mente, a lembrança é cortada pela resposta em áudio sobre o envio de dinheiro, sobre a noção da responsabilidade de aprender a aguentar a solidão tão logo na juventude. As coisas pequenas parecem menores na cidade que não se importa com quem nela está, mas é bom poder escutar o café passando para a xícara como era feito em nosso lar - detalhe que é um brinde gigante do áudio do filme -, mesmo que aqui esteja sendo engolido pelos barulhos dos carros.

Ao fim de tudo, um cigarro, para combinar com o acinzentado urbano. A fumaça também é cinza como as fotos que entrecortam a tela. Uma canção de ninar enche o áudio com a mesma voz maternal ouvida durante o filme. Os cantos do apartamento são tão sozinhos como quem está nele e todos dormem. Sozinhos, pequenos e querendo voltar.




Fantasma Neon - PUC | Leonardo Martinelli - 20 min


Nos teatros vazios ou nas pequenas interações possíveis pela espera de trabalhadores para fazer suas entregas - de uma lista de possibilidades ditadas no início - pedidas por aplicativos, a estetização e cuidado nos planos alinhadíssimos e interessantemente iluminados em "Fantasma Neon", dirigido por Leonardo Martinelli, parece perguntar: ninguém está vendo isso não? 

Chama atenção o canto lírico, como um musical que abre e entrecorta o filme, as cores vermelhas e laranjas que são realçadas por luzes de faróis de carros. Relatos sobre a vivência urbana são interpretados na rua ao olhar compenetrado dos semelhantes que conhecem bem a situação, os 'giroflex' policiais ao fundo, sempre à espreita. Trajados com mochilas térmicas de isopor, essas 'assombrações' já foram vistas por todos nós. Quem sabe não já tocaram nossas campainhas. Mas parece que só dançando com caixas enormes nas costas, - o quão desconfortável deve ser carregar aquilo nas costas, você sabe? - enquanto desvia das armas apresentadas no jogo de montagem, é que olhamos com atenção para eles.

João - nosso protagonista - canta, dança, se revolta e carrega nas costas itens de ’delivery’. Está sempre acompanhado por outros, relembrando sonhos e lamentando a fome enquanto nos olha nos olhos, plano que entrega impacto penetrante. São negros, homens e mulheres, fantasmas na vida e na morte - quando o sangue se transforma em ketchup nos cortes rápidos, não há motivo pra preocupação. Tudo o que são e que sonham é engolido pelo isopor térmico, em poesias visuais que somem com cabeças e com aviões.

A sensação revoltosa acompanha toda a obra. O canto que começa solitário vai ganhando resposta em coro de outros que sofrem o mesmo diariamente e são acusados de ”estar no caminho”. Ao fim, a movimentação de tantos corpos em meio ao caos abaixo de um viaduto proclama visualmente ”This is America”, mas o que instala é mais um ”Zé do Caroço”, com ares necessários de Paulo Galo. Esses já existem, prestemos mais atenção para não precisarmos de neon.



Coletânea de resenhas críticas escritas durante o MOV 2022 -
V Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco

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