sexta-feira, 28 de julho de 2023

MOV Resenha: 07.11.2022 - Sessão 01 - 15h: "Andar para trás" - Paola, Suíte Cachoeirana e Nur

 Paola - Universidade Federal de Pernambuco | Ziel Karapotó - 16 min


Paola é como as plantas e há um grande ensinamento nisso. Em um de seus planos mais bonitos, o filme Paola, dirigido por Ziel Karapotó, mostra a personagem-título em um pequeno barco indo em direção ao Marco Zero da cidade do Recife, ato que parece ser um retorno simbólico em sua diegese, ou espaço fílmico.

O figurino florido e colorido que ressalta a figura de Paola contrasta os cenários profundamente cinzas do urbano. O vestido, bem como todos os elementos, se coloca no filme como um dos vários enfrentamentos postos à mesa com o parente: a planta é um ser vivo igual a nós, cresce igual a nós - diz, mais ou menos assim, Paola em reflexão. 

Comprando flores durante os dias nas ruas do Recife, seu corpo pode ser visto como desviante - a câmera nos traz o uso de desfoques no espaço urbano que parecem longe do acidental: o que não querem ver em Paola? - à mesa com o parente, só lembranças de conforto - como as noites sabem trazer - pela presença, reza, águas e cores. De uma forma ou de outra, a figura de Paola e suas flores de reza - nas águas, que são tão importante meio de transporte para os que o respeitam e para o filme - se confundem entre os planos sobrepostos pela transparência, e as cores se completam pelo cinza da cidade e da fumaça que se larga desde a primeira conversa na mesa, entre os parentes e entre os cachimbos.

Ao final da grande reflexão à mesa, os bastidores, que vieram antes como som durante os trechos iniciais com os usais patrocínios, nos retornam da mesma maneira, mas em canto: Deus no céu e os índios na terra. A dança vira reza. E que assim seja.




Suíte Cachoeirana - Universidade Federal do Recôncavo da Bahia | Luan Santos - 6 min


Ao adentrarmos na Minerva Cachoeirana, logo ao início do filme,  em conjunto com nosso protagonista sem nome, já somos direcionados, física e simbolicamente, ao domínio de som que "Suíte Cachoeirana", dirigido por Luan Santos, propõe em seu título, seus recursos e em seu ritmo. 

O que vemos se desenrolar em tela com profunda criatividade, diga-se não só de passagem, parece ser inspirado de alguma forma por jogos digitais: sua música sempre presente, sua direção de arte que entrega figurinos e objetos de cenas com carisma particular e sua estrutura de jornada parte brincante, parte aventuresca da personagem acompanhada. Essa aventura, aliás, possui belos cenários no Recôncavo da Bahia e utiliza os símbolos carnavalescos e de religiões de matriz afro para compor seu mundo com falas sonoras e que possui uma fotografia que usa pouco para ser eficiente, por vezes com cores avermelhadas, com uma boa sensação de "filme queimado", que faz a mente viajar em um estado de alegria, pelos sentidos tomados pela obra, e de nostalgia, por alguma reminiscência do suporte de filmes em película que ainda possa restar no coletivo das mentes.

É brincante em seus recursos também por não só usar cores vistas em películas, mas bem como pelo uso de efeitos visuais que nasceram com o cinema em sua origem tão, tão europeia - aqui melhor trajada de Bahia - em suas trucagens com troca de figurino e surgimento/desaparecimento de objetos, além de recursos próprios da montagem, como na escada quase infinita que o protagonista vence e recebe a merecida benção no topo. Já que brinca, o carnaval fecha a obra em seu ritmo de crescendo musical que, sim, está no coletivo de mentes, deixando um gosto bom nos olhos, soando bem à boca e perfumando a audição.




Nur - Universidade Federal de Pernambuco | Felipe Karnakis - 3min


Exibido pelo MOV em sessão chamada "Andar para trás", "Nur", dirigido por Felipe Karnakis, começa dando corda em um relógio. O tempo volta enquanto embarcamos para outro lado de um Atlântico tão próximo, em lugares que ainda não vimos, mas que já foram vistos por alguém. 

As cinzas fotografias que entram em sucessão na tela mostram 'alguéns' com nomes. Quem nos diz é uma voz que revela que todos os caminhos contados são passos dados para mais longe das imagens que vemos, até onde o lugar em que nós a vemos. A voz - masculina, envelhecida - nos diz em português, mas com sotaque de outro canto. As imagens nos mostram de onde. Nos é dito que lá, a realidade era trabalho, mas havia carinho. Em terra brasileira é igual, mas sem carinho. A condição de vê-las - tão rápidas as memórias são - em um discurso fílmico maduramente conciso, cresce o som do relógio à mente, em edição prodigiosa com as imagens fixas. Até quando estamos voltando? Os nomes tão incomuns para a cultura brasileira são dados sem titubeio, ribombam as feições que encaramos sem movimento próprio. 

A voz, que logo abandona o sotaque para perguntar em língua mãe - que trata com mais carinho - que caminhos foram andados, que palavras proferidas, volta à origem. As imagens não se movem, o tempo se move. Nós olhamos para as imagens sem piscar. Elas se aproximam de nós.



Coletânea de resenhas críticas escritas durante o MOV 2022 -
V Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco

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