quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Desregrado: Gorogoa (2017) - Jason Roberts - EUA

Ficha técnica:

Gorogoa (EUA) - Lançamento: 14 de dezembro de 2017

Projeto: Jason Roberts
Desenvolvimento: Jason Roberts
Arte: Jason Roberts
Música: Joel Corelitz
Design de Som: Eduardo Ortiz Frau
Plataformas: Nintendo Switch, PlayStation 4, Android, iOS, Windows, MacOS, Xbox One, Xbox Series X e S
Distribuidora: Annapurna Interactive

E uma vida inteira, o que nos dá?

O início do jogo dá uma primeira dimensão interessante: um quadro dividido em quatro partes inscrito como numa página de livro. Tudo isso casa com o projeto interessantíssimo desse jogo de quebra-cabeças, já que sua pequena narrativa passa pelos livros algumas vezes nas suas interações visuais, e o mosaico é algo que define um tempo e um espaço para a busca. O jogo é fragmentado, como a memória se aparenta. Mais comum do que esteja habituado a refletir, narrativas sobre a vida - enquanto ciclo definido - geralmente estão sempre perto da alçada da minha fruição. Não por acaso, talvez isso guie minha leitura da narrativa somente visual de Gorogoa. Os símbolos se apresentam ao redor de um rapaz e sua vida - que vemos ele atravessar em meio à guerra, à peregrinação religiosa, à leitura, à velhice - em perseguição a uma criatura, que suponho dar nome ao jogo. 

Ao folhear um livro quando vê pela primeira vez o dragão colorido - meio bicho, meio coral - esse se mostra um mito que buscamos incessantemente pôr as mãos, enquanto passeamos literal e poeticamente por fotografias, vitrais e por uma ambição que deixa uno o jovem que busca, com curiosidade, ofertar uma oferenda àquela divindade e o velho que cumpri, enfim, o desejo da infância. O ritual que cumprimos nessa obsessão busca algum sentido, mas raramente a vida o tem. A criatura é arredia, traz noite às memórias. Seu objeto de invocação são fontes energéticas que se escondem nos confins da natureza, sejam esses frutas, estrelas ou asas de borboleta, e cabe uma constante mudança de estado para perceber tudo que está escondido, criando uma natural perda de parte do que se passa.

Quando, próximo ao fim de sua experiência de quase uma hora, vemos o jovem se acidentar, por aquela busca imatura e enérgica, e viver de cadeira de rodas e bengala por toda a vida, pra só então, no porvir da maturidade, retomar e concluir a busca que o põe frente aos olhos de algo inapreensível, podemos começar a pensar de que natureza se compõe esse devir. São rasuras, sombras, pedaços, cenários íntimos em cima de uma mesa, rasgos que compõe aquela história que nós, como curiosos e obcecados igual ao garoto-idoso, desvelamos com obstinação para, quem sabe, olhar nos olhos de ser tão inapreensível, tão majestoso, que ao olharmos de volta a nós e ao tempo de nossas vidas nos pergutamos: como um dia posso explicar o que foi tudo isso?

Jogo terminado em uma sessão única no dia 02 de agosto de 2023 em um Nintendo Switch.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Escrita Assistida: ACERDACANA (2010) - Felipe Peres Calheiros - Brasil

Ficha técnica:

ACERCADACANA (Brasil) - 20 min - Lançamento: 2010

Direção: Felipe Peres Calheiros
Roteiro: Felipe Peres Calheiros e Paulo Sano. Colaboraram com o roteiro: André Carlos, Evandro Dunoyer, Marcelo Pedroso, Rafael Travassos, Sérgio Santos
Produção: Diego Medeiros
Fotografia: Felipe Peres Calheiros e Luís Henrique Leal
Montagem: Paulo Sano
Som: Rafael Travassos e Sérgio Santos (Direto). Rafael Travassos e Nicolau Domingues (Edição)

Não abaixar o olhar, ver por cima da cerca

Quando se vai fazer um filme sobre alguém que de fato existe, não é criado, como dona Maria Francisca, há muito o que se levar em conta. No caso presente, estamos falando de um filme político. O debate ético e estético nunca se separa do momento quando o filme se impõe dessa maneira. Não foi diferente na sessão em que vi o filme, e nem deve ser, a bem da verdade.

Como se representa alguém dentro de tantas dimensões? Talvez uma força na pura presença do indivíduo, como é a de Maria Francisca, seja um auxílio para quem a registra. Força, aliás, bem dita logo ao início para o público: herdada uma terra de meio hectare de seu pai, ela resiste à expulsão dessa terra, que já acometeu 15 mil famílias da zona rural de Nazaré da Mata, pelos latifundiários que possuem o domínio econômico de tudo ao redor. 

Mas para além disso, há uma dimensão sensorial que é exposta desde a construção inteligentíssima do título do filme até a estrutura dada por suas imagens e montagem: a terra que mora Francisca e sua família está no meio do canavial, em um latifúndio possuido por uma empresa que quer engolir aquela terra e tudo que nela estiver. Perto, cercada, barrada por toda àquela cana, ela vive uma vida de trabalho em um sistema que está completamente contra ela. Praticamente sozinha, tem que usar de sua convicção plena da vivência no lugar, em que o pai trabalhou e morreu, para se opor ao que a cerca violentamente. 

A câmera que nunca baixa, mostra um estado de vigilância constante que Maria Francisca vive naquele lugar. No tempo de filme, sabemos da luta jurídica, vemos o constrangimento que os "donos" da terra tentam fazê-la passar - ainda mais violentamente usando um vigia do local, homem cindido pelo capital, para tentar articular uma negociação em desequilíbrio com ela. Mais marcante ainda, talvez, seja a cena que fecha o filme em epílogo: com uma câmera deixada pela equipe com a família de dona Maria Francisca, vemos ela protestar ao apontar para um muro de cana em chamas perto de sua casa, uma das muitas estratégias usadas para expulsá-la.

Soubemos por Paulo Sano, montador do filme, que ela perdeu as instâncias legais a que tentava recorrer para permití-la ter meio hectare de terra de um latifúndio. Latifúndio que produz insumo que talvez mais represente a marca de violência colonial que o povo do nordeste passa desde sua primeira ocupação. Resta o registro de mais uma luta perdida, de mais um nó na garganta. Resta mais uma vida devastada pelo capital, mais um motivo para continuar lutando. O filme não encerra essa luta, nem essa intervenção, mas nos coloca a uma necessidade de sempre estar em vigília, por todos.

Disponível em: https://vimeo.com/41003714

Filme assistido no LIS, Laboratório de Imagem e Som, localizado na
Universidade Federal de Pernambuco durante a aula de Montagem
ministrada por Pedro Severien no período 2023.1. Na sessão, o montador
do filme, Paulo Sano, estava presente para um debate após a exibição.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Comentários iletrados: Sidarta (1922) - Hermann Hesse

Título: Sidarta
Autor
: Hermann Hesse
Tradutor da edição: Herbert Caro
Língua original: Alemão
Lançamento original: 1922
176 páginas

"Escrever é bom. Pensar é melhor. A inteligência é boa. A paciência é melhor."

Não lembro ao certo o que me levou a iniciar a minha primeira leitura de Hermann Hesse por este livro. Algum comentário em outra obra, quem sabe. Os prefácios me levam a lugares muito instigantes ao seguir com gosto sempre infantil minha curiosidade. Apesar do presente ser o vencedor de um Nobel, ouvi falar de outros de seus títulos como "Demian" e, especialmente, "Lobo da Estepe" com mais frequência. No caso presente, fiquei bem afeito às coincidências com o momento presente de minha vida: a beira dos vinte e cinco anos, me pergunto muito sobre meus caminhos, ainda que me convença que há tempo para muito ser feito, em esperança que, como é comum, deve ser sempre infundada para ser bem utilizada.

Sua leitura flui como o rio que conversa com o velho Sidarta e Vasudeva, seu mestre tardio. Com menos vozes, mas o fascínio é parecido. Lembrou-me muito da leitura de coletâneas de contos tradicionais ou fábulas de outros povos, que muito gosto, com seu narrador adentrando momentaneamente nas psiques enquanto narra histórias que achatam tempos e distâncias. Não que isso signifique falta de esmero, fique claro. Significa que há um interesse sim em uma ideia ao final de tudo. No caso de Sidarta, que era filho de brâmane, a casta dos sábios, ele sempre foi carregado de conhecimento espiritual e religioso. Se sentia insastifeito, no entanto, e cheio de si, por consequência. Tenta a mendicância dos samanas e não encontrando nada e, ainda sentindo-se superior a todos, vai atrás de Buda e em conversa com ele, o rejeita. Em uma jornada completamente invertida, vai viver com os homens que considera tolos, apaixonados demais por pessoas e bens materiais. Vira um deles, enriquece, conhece o prazer da carne com Kamala, se vicia em jogo de dados e sofre o destino de toda criatura: envelhece. Em momento de desespero, tenta se matar, mas acorda outro homem. Encontra um rio que lhe diz tudo. Perde um filho, vira um santo.

Mesmo não tão afeito a ideia de uma única jornada de iluminação individual que pode chegar a todos - mesmo em histórias, efetivamente, só chegando a alguns - a reflexão contida em suas pouco mais de cento e setenta páginas me causaram muitos momentos de profunda entrega ao olhar meditativo para o mundo, tentando assimiliar o ensinamento das coisas. Sidarta diz a seu amigo de infância Gotama na última vez que se veem, agora idosos, que ama mais os objetos do que as palavras. Diz também que, por mais que tentem, como o venerado Buda tentou, há algo da transformação que acontece a um indivíduo que não se pode comunicar, tão íntimo o que acomete o ser. Em minha contagem, Sidarta morre em torno de três vezes durante o livro. Para continuar, deve mudar ou morrer, e frequentemente faz ambos em conjunto. Vi, em meus vinte e cinco, o que Hesse, ao quarenta e cinco, acreditava da vida de um homem ao achatá-la em menos de duzentas páginas. O fez a partir do contato com a alteridade de outra cultura, e decidiu confrotá-la em pensamento pelo Buda de sua imaginação. Curioso como o jovem Sidarta, ao entrar para o comércio, enxerga tudo como um jogo que, ao saber as regras, só resta vencer. Quando se pensa estar tudo resolvido, saber todas as coisas, e escolhe um caminho. Mas quando perde de vista, ou de ouvido, a unidade das coisas, o fim é o mesmo: a ânsia por abandonar a vida é abissal. E nesse momento sempre se transforma, a partir da morte e do fim, se escolhe outro caminho, abandonando tudo que se sabia para poder prosseguir. Sidarta desiste primeiro da sua erudição, depois de suas posses e então de seus amores, para só assim aprender "a extrema simplicidade é a verdadeira característica dos seres perfeitos".

Leitura realizada em um Kindle dado por um caro amigo
no período entre 18 de julhoe e 01 de agosto de 2023.