quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Escrita Assistida: ACERDACANA (2010) - Felipe Peres Calheiros - Brasil

Ficha técnica:

ACERCADACANA (Brasil) - 20 min - Lançamento: 2010

Direção: Felipe Peres Calheiros
Roteiro: Felipe Peres Calheiros e Paulo Sano. Colaboraram com o roteiro: André Carlos, Evandro Dunoyer, Marcelo Pedroso, Rafael Travassos, Sérgio Santos
Produção: Diego Medeiros
Fotografia: Felipe Peres Calheiros e Luís Henrique Leal
Montagem: Paulo Sano
Som: Rafael Travassos e Sérgio Santos (Direto). Rafael Travassos e Nicolau Domingues (Edição)

Não abaixar o olhar, ver por cima da cerca

Quando se vai fazer um filme sobre alguém que de fato existe, não é criado, como dona Maria Francisca, há muito o que se levar em conta. No caso presente, estamos falando de um filme político. O debate ético e estético nunca se separa do momento quando o filme se impõe dessa maneira. Não foi diferente na sessão em que vi o filme, e nem deve ser, a bem da verdade.

Como se representa alguém dentro de tantas dimensões? Talvez uma força na pura presença do indivíduo, como é a de Maria Francisca, seja um auxílio para quem a registra. Força, aliás, bem dita logo ao início para o público: herdada uma terra de meio hectare de seu pai, ela resiste à expulsão dessa terra, que já acometeu 15 mil famílias da zona rural de Nazaré da Mata, pelos latifundiários que possuem o domínio econômico de tudo ao redor. 

Mas para além disso, há uma dimensão sensorial que é exposta desde a construção inteligentíssima do título do filme até a estrutura dada por suas imagens e montagem: a terra que mora Francisca e sua família está no meio do canavial, em um latifúndio possuido por uma empresa que quer engolir aquela terra e tudo que nela estiver. Perto, cercada, barrada por toda àquela cana, ela vive uma vida de trabalho em um sistema que está completamente contra ela. Praticamente sozinha, tem que usar de sua convicção plena da vivência no lugar, em que o pai trabalhou e morreu, para se opor ao que a cerca violentamente. 

A câmera que nunca baixa, mostra um estado de vigilância constante que Maria Francisca vive naquele lugar. No tempo de filme, sabemos da luta jurídica, vemos o constrangimento que os "donos" da terra tentam fazê-la passar - ainda mais violentamente usando um vigia do local, homem cindido pelo capital, para tentar articular uma negociação em desequilíbrio com ela. Mais marcante ainda, talvez, seja a cena que fecha o filme em epílogo: com uma câmera deixada pela equipe com a família de dona Maria Francisca, vemos ela protestar ao apontar para um muro de cana em chamas perto de sua casa, uma das muitas estratégias usadas para expulsá-la.

Soubemos por Paulo Sano, montador do filme, que ela perdeu as instâncias legais a que tentava recorrer para permití-la ter meio hectare de terra de um latifúndio. Latifúndio que produz insumo que talvez mais represente a marca de violência colonial que o povo do nordeste passa desde sua primeira ocupação. Resta o registro de mais uma luta perdida, de mais um nó na garganta. Resta mais uma vida devastada pelo capital, mais um motivo para continuar lutando. O filme não encerra essa luta, nem essa intervenção, mas nos coloca a uma necessidade de sempre estar em vigília, por todos.

Disponível em: https://vimeo.com/41003714

Filme assistido no LIS, Laboratório de Imagem e Som, localizado na
Universidade Federal de Pernambuco durante a aula de Montagem
ministrada por Pedro Severien no período 2023.1. Na sessão, o montador
do filme, Paulo Sano, estava presente para um debate após a exibição.

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