Autor: Hermann Hesse
Tradutor da edição: Herbert Caro
Língua original: Alemão
Lançamento original: 1922
176 páginas
Não lembro ao certo o que me levou a iniciar a minha primeira leitura de Hermann Hesse por este livro. Algum comentário em outra obra, quem sabe. Os prefácios me levam a lugares muito instigantes ao seguir com gosto sempre infantil minha curiosidade. Apesar do presente ser o vencedor de um Nobel, ouvi falar de outros de seus títulos como "Demian" e, especialmente, "Lobo da Estepe" com mais frequência. No caso presente, fiquei bem afeito às coincidências com o momento presente de minha vida: a beira dos vinte e cinco anos, me pergunto muito sobre meus caminhos, ainda que me convença que há tempo para muito ser feito, em esperança que, como é comum, deve ser sempre infundada para ser bem utilizada.
Sua leitura flui como o rio que conversa com o velho Sidarta e Vasudeva, seu mestre tardio. Com menos vozes, mas o fascínio é parecido. Lembrou-me muito da leitura de coletâneas de contos tradicionais ou fábulas de outros povos, que muito gosto, com seu narrador adentrando momentaneamente nas psiques enquanto narra histórias que achatam tempos e distâncias. Não que isso signifique falta de esmero, fique claro. Significa que há um interesse sim em uma ideia ao final de tudo. No caso de Sidarta, que era filho de brâmane, a casta dos sábios, ele sempre foi carregado de conhecimento espiritual e religioso. Se sentia insastifeito, no entanto, e cheio de si, por consequência. Tenta a mendicância dos samanas e não encontrando nada e, ainda sentindo-se superior a todos, vai atrás de Buda e em conversa com ele, o rejeita. Em uma jornada completamente invertida, vai viver com os homens que considera tolos, apaixonados demais por pessoas e bens materiais. Vira um deles, enriquece, conhece o prazer da carne com Kamala, se vicia em jogo de dados e sofre o destino de toda criatura: envelhece. Em momento de desespero, tenta se matar, mas acorda outro homem. Encontra um rio que lhe diz tudo. Perde um filho, vira um santo.
Mesmo não tão afeito a ideia de uma única jornada de iluminação individual que pode chegar a todos - mesmo em histórias, efetivamente, só chegando a alguns - a reflexão contida em suas pouco mais de cento e setenta páginas me causaram muitos momentos de profunda entrega ao olhar meditativo para o mundo, tentando assimiliar o ensinamento das coisas. Sidarta diz a seu amigo de infância Gotama na última vez que se veem, agora idosos, que ama mais os objetos do que as palavras. Diz também que, por mais que tentem, como o venerado Buda tentou, há algo da transformação que acontece a um indivíduo que não se pode comunicar, tão íntimo o que acomete o ser. Em minha contagem, Sidarta morre em torno de três vezes durante o livro. Para continuar, deve mudar ou morrer, e frequentemente faz ambos em conjunto. Vi, em meus vinte e cinco, o que Hesse, ao quarenta e cinco, acreditava da vida de um homem ao achatá-la em menos de duzentas páginas. O fez a partir do contato com a alteridade de outra cultura, e decidiu confrotá-la em pensamento pelo Buda de sua imaginação. Curioso como o jovem Sidarta, ao entrar para o comércio, enxerga tudo como um jogo que, ao saber as regras, só resta vencer. Quando se pensa estar tudo resolvido, saber todas as coisas, e escolhe um caminho. Mas quando perde de vista, ou de ouvido, a unidade das coisas, o fim é o mesmo: a ânsia por abandonar a vida é abissal. E nesse momento sempre se transforma, a partir da morte e do fim, se escolhe outro caminho, abandonando tudo que se sabia para poder prosseguir. Sidarta desiste primeiro da sua erudição, depois de suas posses e então de seus amores, para só assim aprender "a extrema simplicidade é a verdadeira característica dos seres perfeitos".
Leitura realizada em um Kindle dado por um caro amigo
no período entre 18 de julhoe e 01 de agosto de 2023.

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