segunda-feira, 31 de julho de 2023

Estudante Digital: Relações entre "A Sociedade Anonyma Fabrica Votorantim" (1922), de Armando Pamplona e "A Indústria Açucareira Através da Usina Estrelliana" (1930), de Lux Filme Pernambucana

Ao analisar as duas obras de cavação, a comparação inicial mais evidente é a diferença entre a natureza principal das economias dos espaços registrados. O primeiro, cronologicamente falando, mais antigo e localizado na região sudeste, apresenta como grande joia de sua obra e região o desenvolvimento da sua indústria, que, como relatado no filme, é dada como uma potência para todos que dela usufruem, incluindo, nesse usufruto, o espaço em que esse modelo de produção é incluído. Dessa maneira, as imagens estão sempre em busca de dar a dimensão do impacto que aquela fábrica têxtil causou na localidade, registrando a extensão disso com as edificações colossais, complexos de moradia para os trabalhadores, igrejas, as imensas casas dos responsáveis pela fábrica e citando, também, a contribuição à metrópole com o planejamento e execução de construção de alguns de seus bairros. Apesar de o senso estético bem conservador e pouco moderno, a despeito do corpo imagético estar celebrando uma considerada modernidade social, as imagens se detêm, em grande parte, nas etapas de produção que são realizadas com a maquinaria filmada. Nesse aspecto, o proletário registrado é mais uma ferramenta para mostrar a grandeza do empreendimento, com esses, até mesmo, sendo registrados com um misto de curiosidade e incômodo perante o aparato fílmico em seu ambiente de labuta. 
Esses aspectos, em comparação ao filme da Usina Estrelliana, adicionam às imagens um documento histórico para além da análise individual, com a possibilidade de se notar uma clara diferença de desenvolvimento econômico nas diferentes regiões nacionais. A titulação já entrega: “A Indústria Açucareira Através da Usina Estrelliana”, mesmo gravada quase com uma década de diferença, expõe que o principal papel da região nordeste ainda era a produção de insumos, enquanto as regiões mais ao sul gozavam de desenvolvimento industrial mais avançado que os das regiões mais próximas ao equador. Sabendo que essas formas de desenvolvimento do trabalho também impactam a construção da visão social de mundo, vemos o reflexo na produção do segundo filme. Com características de trabalho mais rural sendo capturados, trata-se também os proprietários de forma mais personalizadas, tendo-se maior vislumbre da sociedade tida como alta classe do período em foco. Através da personalização, os registros impressos pela câmera parecem tratar tudo o que é filmado como posses ou dotes dos proprietários já filmados. Uma coleção de imagens que vão mostrar o poderio econômico daquelas pessoas, imagens essas, importante citar, pouco preocupadas em serem modernas, mas mais em criar volume ao pretenso desenvolvimento econômico atingido na região. As imagens chegam ao ponto crítico de tratar tanto em demasia todo o registrado como pose, que até mesmo os trabalhadores são enfileirados como parte da propriedade da família registrada como dona do local. Assim, em paralelo com o filme anterior, os trabalhadores mais apresentam incômodo do que curiosidade. 
Importante notar também o fato do tamanho dos registros. Obviamente, o primeiro filme é financiando por um grupo de indivíduos e o segundo somente pelas figuras principais registradas, mas não se pode deixar de analisar o aspecto de exibição pretendida pelos filmes. O primeiro pode intencionar um grupo maior de indivíduos e é um grande registro do desenvolvimento de uma área por completo, enquanto a duração do segundo confere a ele uma característica de registro caseiro que vá circular aos convidados da propriedade e pela própria família. Esse dado pode ser inferido levando em conta o preço de produção de peças assim, com todo o aparato e matéria-prima necessário. 
Não é preciso dizer que, apesar das diferenças em desenvolvimento das economias regionais, o país por completo ainda era mergulhado em situação de imensa fragilidade nas populações trabalhadoras, fato que fica evidenciado nas obras. Ao retratarem suas imagens em uma ótica de exaltação da economia desenvolvida em cada parte do país, não se pode fugir às disparidades, tanto em relação às regiões, quanto em relação aos indivíduos dentro da teia social. Uma situação que se altera minimamente com o tempo, mesmo que, também, não seja necessário dizer.

Filmes disponíveis em:



Texto escrito em 17 de setembro de 2020, encontrado como arquivo digital
no Drive. Realizado como atividade para a disciplina de Cinema Brasileiro
ministrada por Cid Vasconcelos no curso de Cinema e Audiovisual na UFPE.


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