segunda-feira, 31 de julho de 2023

Estudante Digital: Matar ou Correr (1954) - Carlos Manga - Brasil

Ficha técnica:

Matar ou Correr (Brasil) - 1h 27min - Lançamento: Novembro de 1954

Direção: Carlos Manga.
Roteiro: Amleto Daissé e Victor Lima
Produção: Guido Martinelli
Fotografia: Amleto Daissé
Montagem: Carlos Manga, Wilson Monteiro eWaldemar Noya
Música: Luiz Bonfá e Lyrio Panicalli
Direção de Arte: Arnóbio Carvalho
Figurino: Gilda Bastos
Elenco: Oscarito, Grande Otelo, Jesse Gordon, Julie Bardot, Renato Restier, John Herbert, Inalda de Carvalho, Wilson Grey, Altair Villar, Wilson Vianna, Suzy Kirby, Walter Quinteiros, Nelson Dantas, Nicolau Guzzardi
Estúdio: Atlântida Cinematográfica

Resenha
Matar ou Correr (1954), de Carlos Manga, é uma chanchada-western que parodia, em seu título e no nome de alguns personagens, High Noon, filme de 1952 conhecido no Brasil como Matar ou Morrer.
Sendo uma paródia, o espaço diegético do filme é especialmente curioso: há pouca indicação do país onde se passa os acontecimentos testemunhados – sendo tratado rapidamente no letreiro inicial como “[...]em certo ponto do Oeste, e em época qualquer.” – sendo uma das poucas indicações possíveis o nome da cidade cenográfica, City Down, que é construída em moldes imediatamente reconhecíveis de filmes hollywoodianos incluindo até os letreiros das edificações escritos em inglês, deixando uma certa dubiedade em relação ao espaço onde ocorre as ações do filme. Pela natureza da chanchada, não é difícil imaginar que o nome da cidade já é uma piada tanto de tradução literal quanto uma piada linguística. A tradução literal é “cidade baixa”, talvez uma possível descrição da situação do pequeno município dominado pelo crime escancarado, enquanto a outra situação é explorada na relação da dupla de malandros-cômicos, Kid Bolha e Ciscocada, interpretados por Oscarito e Grande Otelo, respectivamente, com o dono do hotel local, assim que chegam no pequeno vilarejo. O filme possui diversas tomadas externas e em estúdio, contribuindo muito ao imaginário da cidade e das cenas de perseguição a cavalo. A cidade é constituída de locais comuns a qualquer western e tudo é muito bem demarcado: o hotel, onde conhecemos somente o trecho externo; o saloon, onde ocorre a maioria dos conflitos físicos do filme e onde encontramos o escritório de Bob, dono do estabelecimento, e a delegacia com a cela, onde Jesse fica preso e vigiado preguiçosamente pelos dois xerifes de City Down.
A dupla, os protagonistas do filme, são tipos de malandro-cômicos que através de suas picaretagens conseguem prender o grande vilão da cidade de City Down, Jesse Gordon, interpretado por José Lewgoy, e assim invertem sua situação e se tornam xerife e xerife assistente da cidade. Durante o trajeto de ambos no filme, eles e encontram e auxiliam dois casais românticos a se encontrarem e a derrotarem Jesse Gordon que fugiu da prisão. O primeiro casal é composto de um mocinho, Bill, e uma mocinha, Helena, filha do dono do hotel, e são introduzidos mais ao início da película, enquanto o segundo, mais tardio, é composto pelo galã Roy e a vedete Bela, que trabalha no cabaré com o outro antagonista, esse trabalhando mais nas sombras, como mandante de crimes, e dono do saloon local, fazendo que fique menos claro um tipo frequente desses filmes. Os tipos na obra seguem a cartilha conhecida das chanchadas: o jeitinho brasileiro é bem inscrito nos malandros-cômicos, que fazem ações duvidosas do ponto de vista moral, mas acabam ajudando a cidade e os indivíduos. O primeiro casal apresentado segue a lógica da menina pueril e que nega os avanços sexuais do mocinho, esse que é um homem valorado pelas outras pessoas da cidade e corteja constantemente a mocinha, sendo responsável pela única cena musical do filme, onde faz um cortejo cantando a canção Ninguém para Amar de Anísio Silva e C. Portela e se aproximando da mocinha, que prossegue o rejeitando até o momento final do filme onde acontece o beijo apaixonado. O segundo casal, apresentado mais tardiamente, é de um galã e uma mulher sedutora, que se encontram em segredo para não chamarem atenção de Bob, o dono do saloon.
O saloon, inclusive, é locação de uma das cenas de maior demonstração de habilidade de Carlos Manga na direção. Oscarito, ainda se denominando Humphrey, recém chegado em City Down e depois de ter vendido alguns cavalos juntamente de Grande Otelo, chamando-se ainda de Bogart, vai ao saloon para gastar o seu dinheiro com um jogo de cartas. Por terem chegado à cidade como vendedores de cavalo, disfarce comum aos agentes federais que andam em duplas, ambos são confundidos e marcados por Jesse Gordon e seus capangas. Antes de entrar no local, ele se depara com um corpo sendo retirado pela porta da frente e é avisado que a ação foi feita por alguém chamado Jesse Gordon. Entrando no saloon ele prontamente pede um chopp e uma figura mal encarada se aproxima dele e agarra o seu chopp assim que o balconista o entrega. Sem graça e amedrontado, ele se afasta da figura para se aproximar da mesa de cartas e se senta com os jogadores que ali se encontram, sugerindo jogar com suas cartas por serem novas, quando na verdade a intenção é usar suas cartas marcadas para ganhar o jogo. Jesse e seus capangas expulsam o jogador na ponta oposta a Humphrey e o desafiam a um jogo de carta, contudo usando as cartas da casa somente. Há um belo espelhamento e coreografia da fotografia e dos atores. Quando os três antagonistas se sentam, eles são enquadrados em um conjunto que toma toda a tela. O contra plano é Humphrey e outros dois jogadores que já estavam na mesa, mas na presença de Jesse se retiram, deixando Oscarito enquadrado com dois lugares vagos ao seu lado, indefeso e sozinho. Quando as cartas vão sendo distribuídas, há planos detalhes de cada conjunto de cartas, e fica claro, mesmo por um espectador leigo, pelo tremer de mãos e atitude das personagens, que a personagem de Oscarito vai, inevitavelmente, e com uma sorte que é mal sorte, ganhar o jogo. Quando Humphrey retira sua mão final, há figurantes preenchendo o fundo do quadro que expiam suas cartas e tratam de se retirar daquela posição, escapando de eventuais balas do vilão perdedor. Ao jogar suas cartas na mesa, Jesse intima Humphrey a mostrar sua mão, mesmo com esse insistindo na vitória dele. Antes que possa revelar o que tem em mãos, Bougart, Grande Otelo com uma vestimenta nova e completa de cowboy, adentra o saloon de forma barulhenta e se chega de forma expansiva para próximo da mesa, disparando graças e tapas de deboche nas costas do mal encarado enfrentando seu companheiro, alertando que tudo bem ganhar dele, mas que devia ter cuidado com uma figura chamada Jesse Gordon. Explodindo com essa interação, Jesse vira a mesa e começa um embate entre as figuras. Ao fim, a dupla de malandros imobiliza o vilão e ganham honrarias na cidade, sendo denominados xerifes, além de ganharem suas alcunhas: Kid Bolha e Ciscocada. A comédia e tensão da cena, combinada a uma decupagem cuidadosa fazem a cena uma das mais chamativas do filme.
Filme disponível em:


Texto escrito em 29 de outubro de 2020, encontrado como arquivo digital
no Drive. Realizado como atividade para a disciplina de Cinema Brasileiro
ministrada por Cid Vasconcelos no curso de Cinema e Audiovisual na UFPE.

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