Mondo Cacho - Universidade Federal do Recôncavo da Bahia | Matheus Leone - 19min
Não é incomum na parcela universitária da produção cinematográfica ver filmes-ensaio em que autores refletem sobre si. Pensar-se como personagem é a experiência de se dimensionar e organizar vivências e aventuras no mundo. Ao abrir de "Mondo Cacho", dirigido por Matheus Leone, já está dito como são contadas as histórias: uma pessoa parte em uma jornada ou um estranho chega à cidade.
É essa a bivalência aqui: um nativo, Flávio, ingressa na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e uma forasteira, Bruna, também. Pode ser óbvio pensar em como as experiências moldam os indivíduos, mas as lembranças das festas da Quinta do Preto Velho, na Rua 25, localizada na cidade de pouco menos de quarenta mil habitantes chamada Cachoeira, lugar que recebe na época da interiorização das universidades federais o Centro de Artes, Humanidades e Letras, vulgo CAHL, mostra o quanto as pessoas também moldam os espaços e as experiências.
Cachoeira é uma cidade que vive de memórias e o audiovisual tem tudo a ver com isso, diz o nativo. A transformação geral é trazida em relatos com tensões próprias. Do lado do nativo, nem todos se dão conta que o espaço também é ocupado por alguém que é de lá, o que leva à escuta das diferenças dos desordeiros do CAHL em relação à cidade. A forasteira Bruna narra sua chegada de Minas até o sul da Bahia, seu desenvolvimento e as violências homofóbicas sofridas. Não se engane: nada é dito com ressentimento ou raiva, apesar do segundo soco na cara ou dos abaixo-assinados para expulsar a universidade da cidade com todos os ”maconheiros, traficantes e vagabundos”.
A cidade também muda. O relato sobre o amigo Reifra, antes atacado por palavras homofóbicas, que se torna amigo dos vizinhos de Bruna que aquilo fizeram, é prova desse constante movimento e entendimento entre as partes. A memória das imagens é uma gostosa montagem de filmes realizados pelos alunos do curso que também marcam aquela memória. Dá vontade de ser universitário, voltar a ser ou ter orgulho de estar o sendo e, quem sabe mudar, um mundo de cada vez.
Retalhos - Universidade Federal de Pernambuco | Clara Coelho e Thales Seixas - 23 min
É curioso como, apesar do modelo formal, a constituição conceitual de ”Retalhos”, dirigido por Clara Coelho e Thales Seixas, funciona bem em combinar o modelo conhecido com sua proposta. Tratando de profissionais pouco visualizados, em persona não em trabalho, do audiovisual, o filme apresenta três figurinistas em estúdio para falar sobre seus processos, biografias e experiências. Paulo Ricardo, Caroline Oliveira e Rayanne Layssa são apresentados em fragmentos - ou, se preferir um sinônimo, recorrer ao título da obra - e suas falas e saber-fazer da área são costurados pela performance visual de Itioko Santiago.
Com muita generosidade, é desvelado as confluências de opiniões e especificidades de métodos que cada um apresenta. Enquanto personagens da obra, há perfis que vão do artístico e político, prático e produtor, universitário e criativo, e as matrizes que são possíveis por combinações dessas, em falas que contemplam a sensorialidade, o acaso, as falas dos tecidos, das roupas e dos ritos. A condução é em tom de conversa. É tudo real e material como o que se põe sobre a pele: desde o acúmulo de funções na cena de cinema independente, a necessidade de se virar com poucos recursos, se sustentar pelo trabalho árduo e, por vezes, invisível e as idas ao centro em garimpo por tecidos e ideias.
A performance que amarra as cenas, mostra um trabalho que é construído aos poucos, em mãos nuas, mas com atenção plena. Em momento de maior especificidade dos relatos, Paulo fala do processo que envolve atores, com a referencialização do mundo interior, com seus medos e desafios, posto ao mundo em proteção que se veste. Carol, como prefere ser chamada, olha ao mundo e sabe, como os outros, que ele se expressa e só espera para conversar com uma obra, e essa conversa pode ser uma pequena jaqueta rosa. É um entrelaçar de muitas mãos, pensando os objetos com efeito e afeto, sensíveis ao que é dito em silêncio por quem tanto presta atenção nos seres humanos e seu subjetivo posto em trama.
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